100 anos da Semana de Arte Moderna traz ciclo de filmes de diretores vanguardistas



RICARDO DIAS DE OLIVEIRA FILHO


“A cinematografia é uma arte que possui muito poucas obras de arte”, afirmou Mario de Andrade em um texto publicado em 1922. Para o escritor, um dos protagonistas da Semana de Arte Moderna, “as empresas produtoras de fitas não se incomodam em produzir obras de arte, mas objetos de prazer mais ou menos discutível que atraiam o maior número de basbaques possível”.


A mostra “Reflexos do Modernismo”, disponível no Belas Artes à la carte, comemora o centenário da Semana de Arte Moderna com um conjunto de nove filmes que revelam como os valores vanguardistas foram absorvidos também por cineastas.


Confira os filmes da mostra e algumas opiniões a respeito deles:



A PROPÓSITO DE NICE

(Jean Vigo, França, 1930, 24 min)

O que começa como um diário de viagem se transforma em um retrato da cidade de Nice na Côte d'Azur francesa, documentando as rotinas diárias e desigualdades sociais.


Hoje, não é o caso de revelar o cinema social nem de sufocá-lo com uma fórmula, mas de nos esforçarmos para despertar em todos a necessidade latente de ver mais bons filmes que abordam a sociedade e suas relações com os indivíduos e as coisas. Pois o cinema sofre mais com as ideias viciosas do que com a falta de ideias. No cinema, nós tratamos nosso espírito com o mesmo refinamento que os chineses dedicam a seus pés." (Jean Vigo, "Por um Cinema Social")


LIMITE

(Mario Peixoto, Brasil, 1931, 114 min)


Em uma canoa em alto mar, três náufragos navegam sem rumo enquanto relembram de seu passado.


"LIMITE é um filmazcendente dum intelectual decadente: Metafyzyk, monta o Realyzmo à Abztraxão ou – como disse Mário Pedrosa na saída da Sala FUNARTE, para cuja inauguração se projetou o filme – (O rio continua deliciosa província) – É Obra na qual a Forma supera o Conceyto!” (Glauber Rocha, “Crítica Esparsa, 1957-1955”)

ZERO DE CONDUTA

(Jean Vigo, França, 1933, 44 min)

Em um dia festivo, quatro garotos se rebelam contra as regras rígidas de comportamento de um internato francês.


"A divisão em dois mundos e a conclusão do filme nos dão todos os elementos da ideologia de Vigo e das intenções sociais de ZERO DE CONDUTA. A escola, tirada das recordações de infância de Vigo, é também a sociedade tal como ele a vê agora adulto. A divisão entre crianças e adultos no interior dessa escola corresponde à divisão em classes da sociedade: uma minoria forte que impõe sua vontade à maioria fraca. A associação entre as crianças e seu cúmplice Huguet de um lado, as pessoas do povo, a cozinheira e o garçom de café, do outro, não nos é dada pela ação - seria artificial - mas pelo mesmo estilo realista da apresentação de uns e outros, em oposição à estilização acentuada dos adultos representantes da autoridade." (Paulo Emílio Sales Gomes, “Jean Vigo”)


O ATALANTE

(Jean Vigo, França, 1934, 89 min)

A bordo do barco L'atalante, o casal recém-casado Juliette, uma inocente camponesa, e o capitão do barco Jean lutam pelo casamento.


“Quando filma O ATALANTE logo depois, é evidente que Vigo aprendeu com ZERO DE CONDUTA e desta vez ele alcança a perfeição. Ele ainda utiliza a câmera lenta para obter efeitos poéticos, mas descarta as acelerações para produzir comicidade, não recorre mais a manequins e só coloca diante da câmera o real, que ele transforma em fantasia. Filmando a prosa, ele alcança sem esforço a poesia: (François Truffaut, "Os Filmes da Minha Vida")


NA SOLIDÃO DA NOITE

(Alberto Cavalcanti, Robert Hamer, Basil Dearden e Charles Crichton, Inglaterra, 1945, 103 min)

Walter Craig é convidado para passar um final de semana no campo, mas pressente a desgraça iminente quando se depara que todos os convidados fazem parte de seus horríveis sonhos.

“NA SOLIDÃO DA NOITE resiste bem ao tempo. A narrativa de ligação, dirigida por Dearden, mantém o filme coeso de forma eficaz, construindo a sensação de pavor em direção à conclusão adequadamente delirante. Os cinco contos sobrenaturais podem ser desiguais, mas a história de Cavalcanti – um talentoso ventríloquo é levado à tentativa de assassinato por seu manequim aparentemente consciente – é assustadora e emocionante, e apresenta uma performance poderosa de Michael Redgrave como o ventríloquo problemático e finalmente desequilibrado.” (Nark Duguid, “Screen”)



AS VIDAS E AVENTURAS DE NICHOLAS NICKLEBY

(Alberto Cavalcanti, Inglaterra, 1947, 108 min)

Após a morte dos pais, Nicolas Nickleby, um homem jovem e pobre, luta para salvar sua família e amigos da exploração abusiva de seu tio injusto e ganancioso.


"Com seu enredo um bocado episódico, Nicholas Nickleby certamente apresenta alguns desafios difíceis para um cineasta que procura fundir um romance de setecentas páginas em uma narrativa visual clara. Talvez não seja surpreendente descobrir que muitos críticos contemporâneos acharam o filme muito acelerado e decididamente desfocado, reclamando do movimento rápido entre eventos e personagens e da falta de uma moral ou tema definida. No entanto, vendo o filme de Cavalcanti novamente, algumas das reações da época parecem rudes. Há sugestões de uma abordagem neorrealista na direção que dá a algumas cenas, especialmente as do Dotheboys Hall, que têm uma ferocidade inigualável por outras adaptações de Dickens daquela época.” (David Palmer, “Screen”)


SIMÃO, O CAOLHO

(Alberto Cavalcanti, Brasil, 1952m 101 min)

Simão é um homem caolho e deseja recuperar seu olho perdido a qualquer custo. Para isso, submete-se às experiências de um amigo, que é um inventor maluco.

"Quem viveu em São Paulo, […] quem observou os interiores das casas da pequena burguesia paulistana, quem registrou a fisionomia das ruas dos bairros humildes […], é conquistado pela fita, pela massa de observações, de ditos, de situações, tão carregados de cor local, de pitoresco humano e de atmosfera típica” (Francisco Luiz de Almeida Salles, “O Estado de S. Paulo”)


O CANTO DO MAR

(Alberto Cavalcanti, Brasil, 1953, 84 min)

No litoral nordestino, uma família de retirantes encontra uma sina de loucura, miséria, traições e desesperança. A procura de uma saída favorece a desintegração dessa família


“O mar como saída e aprisionamento, o mar como fronteira final para a fuga e como rota da possibilidade remota de partir para o sul, e é sobre isso que se trata O CANTO DO MAR, sobre o desejo de partir, de conhecer um outro mundo menos árido, desejo que Cavalcanti conheceu bem, não pelo viés da miséria social, mas existencial. O seu exílio não foi movido pela fome e pela falta de oportunidade, mas sim pela limitação da liberdade e dos horizontes intelectuais.” (Roberta Canuto, "Alberto Cavalcanti, Homem Cinema")


MULHER DE VERDADE

(Alberto Cavalcanti, Brasil, 1954, 100 min)

A enfermeira Amélia se apaixona por seu paciente, Bamba, e secretamente se casa com ele. No entanto, ela aproveita os horários de trabalho para se casar com outro rapaz, levando uma vida dupla.


“O filme cristaliza em personagens polarizados relações pouco pacíficas entre classes e raças, abrindo espaço para uma dança entre personagens agressivos e personagens conciliadores. E esse jogo entre agressividade e conciliação figura algo do clima político. As diferenças de classe se constroem através de uma dinâmica belicosa bem mais explícita do que nas chanchadas.” (Flávia Cesarino Costa, "Burguesia e Malandragem em MULHER DE VERDADE"